10. A verdade do Evangelho e a incoerência do legalismo
“Quando, porém, vi que não procediam corretamente
segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na presença de todos: se, sendo
tu judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a
viverem como judeus? Nós, judeus por natureza e não pecadores dentre os
gentios, sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e
sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que
fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras
da lei, ninguém será justificado”._(Gálatas 2.14-16).
Nesta seção da carta aos Gálatas, Paulo expõe um momento tenso, porém crucial, da vida da igreja primitiva: a repreensão pública de Pedro (Cefas) em Antioquia. Essa repreensão não foi movida por rivalidade pessoal, mas pela necessidade de proteger a verdade do evangelho (v.14). Pedro, por medo de um grupo judaizante, passou a agir com hipocrisia, afastando-se dos cristãos gentios. Seu comportamento, influente por sua posição, comprometeu a liberdade que há em Cristo, levando outros (inclusive Barnabé) a se desviarem do caminho da graça.
Nos versículos 14 a 16, Paulo
apresenta não só sua exortação a Pedro, mas também o cerne teológico da sua
defesa: a justificação é somente pela fé em Jesus Cristo, e não pelas obras da
Lei. Trata-se, aqui, de um divisor de águas entre o evangelho genuíno e
qualquer forma de evangelho adulterado por legalismo.
"Quando, porém, vi que não procediam corretamente
segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na presença de todos: Se, sendo
tu judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a
viverem como judeus?" (v.14)
Paulo narra o episódio ocorrido
em Antioquia (conforme Gálatas 2.11-13). Pedro, que antes comia
livremente com os gentios convertidos, começou a se afastar deles após a
chegada de emissários vindos da parte de Tiago. Isso sinalizava que, para
manter comunhão, os gentios teriam de seguir costumes judaicos, como a
alimentação ritual e a circuncisão.
“Não procediam corretamente” traduz o verbo grego orthopodeō,
que significa "não andavam com os pés retos". Ou seja, suas ações
estavam em desacordo com a rota traçada pelo evangelho.
“A verdade do evangelho” é a
centralidade da justificação pela fé e da igualdade entre judeus e gentios em
Cristo.
A pergunta de Paulo a Pedro
revela a incoerência: se Pedro, judeu de nascimento, já havia abandonado
práticas legais judaicas, por que agora, com sua atitude, forçava os gentios a
praticá-las? O verbo usado aqui é ioudai̱zō, literalmente, "judaizar", ou seja, adotar os
costumes cerimoniais dos judeus.
Hipocrisia e incoerência,
especialmente de líderes espirituais, podem causar grande dano à verdade do
evangelho e à unidade da igreja. A correção, embora dura, foi necessária —
pública, porque o erro foi público.
"Nós, judeus por natureza e não pecadores dentre
os gentios..." (v.15)
Paulo se inclui com Pedro ao
dizer "nós", reconhecendo que ambos nasceram dentro da aliança
judaica. Diferentemente dos gentios, chamados pejorativamente de “pecadores”
(não por serem mais pecadores, mas por estarem fora do pacto mosaico), os judeus
tinham uma história de privilégio religioso e revelação divina.
Este é o ponto de partida para
mostrar que, mesmo aqueles com toda a herança religiosa do judaísmo, entenderam
que a salvação não vem da obediência à Lei. A justificação não é um privilégio
étnico ou mérito moral, é graça recebida pela fé.
"Sabendo, contudo, que o homem não é justificado
por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em
Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras
da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado." (v.16)
Paulo apela a um conhecimento
comum entre os apóstolos. “Sabemos”, remete a ideia de que Pedro e Paulo sabiam
que a justificação não é pelas obras da Lei.
“Obras da Lei” são os atos de
obediência às prescrições mosaicas (tanto morais quanto cerimoniais) feitas
como tentativa de obter mérito diante de Deus. O termo “Justificados”, por sua
vez, tem origem forense, indicando que ser declarado justo por Deus não é
tornar-se justo por si, mas receber um novo status diante de Deus pelos méritos
de Cristo. Paulo reforça três vezes que a justificação não é pelas obras da
Lei, mas pela fé em Cristo. Isso mostra a centralidade absoluta dessa doutrina
no evangelho verdadeiro.
A frase final: “ninguém será justificado pelas
obras da lei”, remonta o Salmo 143:2, que declara: "à tua presença ninguém é
justo". A
justificação pela fé, portanto, não é novidade. Ela já era proclamada, ainda
que de modo embrionário, nas Escrituras hebraicas.
A atitude de Pedro, por mais
bem-intencionada que parecesse, representava uma grave deturpação da graça.
Paulo, por zelo à pureza do evangelho, o confronta firmemente. O evangelho não
admite divisões étnicas nem méritos religiosos como base de aceitação diante de
Deus.
A repreensão paulina nos ensina
que a verdade do evangelho exige coerência entre doutrina e prática. Nenhuma
obra ou ritual pode justificar o pecador diante de Deus e a justificação se dá unicamente
pela fé em Cristo — exclusivamente, completamente e irreversivelmente.
A cruz de Cristo é suficiente. Acrescentar algo a ela é, na verdade, subtrair a sua eficácia.
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