Renovando a esperança em Deus para o ano que se inicia

 

Enquanto o relógio marcava a última meia-noite do ano, um homem olhava pela janela, vendo os fogos de artifício iluminarem o céu. No entanto, seu coração estava pesado. Ele havia perdido uma ente querida um mês antes, enfrentado enfermidades e, agora, sentia-se incapaz de acreditar que algo poderia mudar no ano que começava. O cenário, o mais desolador possível, considerando o ano de 2024: Guerras, escândalos envolvendo igrejas, crises econômicas, corrupção e desastres naturais.

Para muitos de nós, a chegada de um novo ano desperta tanto esperança quanto apreensão. Queremos acreditar em tempos melhores, mas as dores do passado muitas vezes parecem falar mais alto. É nesse contexto de incertezas que a Palavra de Deus nos chama a renovar nossa esperança n’Ele, lembrando-nos de que o Senhor é fiel e imutável, independentemente das circunstâncias.

O profeta Jeremias, em meio à devastação de Jerusalém, declarou: "Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos; porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade"_(Lamentações 3.21-23). Assim como Jeremias encontrou consolo na fidelidade de Deus, nós também podemos renovar nossa esperança ao nos lembrarmos de que o Senhor governa soberanamente todas as coisas para o bem daqueles que O amam (Conforme Romanos 8.28). Sua fidelidade não depende de nossos méritos ou da estabilidade de nossas vidas, mas está enraizada em Seu caráter imutável.

Na teologia reformada, aprendemos que a esperança cristã não é um desejo vago ou incerto, mas uma expectativa firme baseada nas promessas de Deus. João Calvino, comentando Romanos 8.25, afirma: "A esperança repousa na promessa de Deus, que nunca falha; assim, mesmo quando não podemos ver o cumprimento imediato de Suas promessas, sabemos que Ele é fiel para cumprir cada palavra" (CALVINO, 2006, p. 391). Essa certeza nos permite atravessar os desertos da vida com a convicção de que o Senhor é o pastor que nos conduz às águas tranquilas (Conforme Salmo 23.2).

Porém, é fundamental entender que renovar a esperança em Deus exige um exercício ativo de fé. Não se trata de ignorar nossas dores, mas de entregá-las aos pés de Cristo. Martyn Lloyd-Jones exorta: "Nunca permitamos que nossa visão seja moldada pelas dificuldades que enfrentamos, mas, ao invés disso, que seja moldada pelas promessas infalíveis de Deus" (LLOYD-JONES, 1987, p. 145). Assim, o ato de renovar a esperança envolve oração, meditação na Escritura e comunhão com outros crentes, que podem nos encorajar mutuamente na jornada.

Quando olhamos para o ano que se inicia, somos chamados a ajustar nossa perspectiva. O apóstolo Paulo nos lembra de que "a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação"_(2 Coríntios 4.17). Em outras palavras, as lutas do presente são ferramentas nas mãos de Deus para nos moldar e nos preparar para a glória futura. Esse entendimento não elimina nossas dificuldades, mas nos oferece um propósito maior para enfrentá-las.

A esperança cristã não é meramente introspectiva; ela nos move a uma vida prática de confiança. Como a igreja de Cristo, somos chamados a proclamar essa esperança ao mundo, mostrando, em nossas palavras e ações, que o evangelho é suficiente para transformar corações e renovar vidas. Ao renovarmos nossa esperança em Deus, somos capacitados a ser luz em meio às trevas, como uma cidade edificada sobre um monte que não pode ser escondida (Conforme Mateus 5.14).

Neste ano que começa, lembremo-nos de que a nossa verdadeira esperança não está em mudanças externas, mas em nosso Deus que reina soberanamente e trabalha para a nossa redenção completa. Assim como o homem identificado no início do texto, que decidiu colocar seus joelhos no chão e clamar ao Senhor por forças para confiar, também somos chamados a renovar nossa fé e dependência n’Ele. A fidelidade de Deus, renovada a cada manhã, é a certeza de que, seja qual for o cenário que enfrentarmos, Ele estará conosco, sustentando-nos e conduzindo-nos à Sua glória eterna.

 

Referências Bibliográficas

BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. 2ª ed. Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

CALVINO, João. Comentário sobre a Epístola aos Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

LLOYD-JONES, Martyn. Depressão Espiritual: Suas Causas e Cura. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1987.


Fábio Luiz de Souza.

Comentários

Postagens mais visitadas

Youtube

Programa | Spotify