O mistério da manjedoura
“E
tu, ó torre do rebanho, monte da filha de Sião, a ti virá; sim, virá o primeiro
domínio; o reino da filha de Jerusalém.” _(Miqueias 4.8).
Você parou para refletir porque, ao nascer, Jesus foi envolto em faixas e colocado em uma manjedoura? Alguns acreditam que por não haver cama disponível. Entretanto, o mistério da manjedoura envolvendo o nascimento de Jesus Cristo e sua possível conexão com o Midgal Eder (Torre do Rebanho) traz novas implicações teológicas, fomentadas por aspectos históricos e exegéticos. Essa ligação é baseada na tradição judaica e nas Escrituras, apontando para um simbolismo profética da manjedoura no contexto do plano redentor de Deus.
O versículo base deste devocional,
amplamente entendido pelos estudiosos como uma referência messiânica, destaca o
Midgal Eder como um local de relevância profética. Historicamente, esse
era o lugar onde os pastores cuidavam de rebanhos destinados aos sacrifícios no
templo em Jerusalém. Alfred Edersheim, em sua obra The Life and Times of
Jesus the Messiah, explica que esses rebanhos especiais eram cuidadosamente
selecionados, sendo guardados na região de Belém, próximo ao Midgal Eder,
reforçando o significado sacrificial de Cristo como “o
Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”_ (João 1.29)
desde o momento de seu nascimento (EDERSHEIM, 1993, p. 186).
A narrativa de Lucas 2.7
enfatiza que Maria “deu à luz o seu filho
primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para
eles na hospedaria”. Esse ato, aparentemente simples, carrega
simbolismo teológico significativo. O local da manjedoura poderia ser o mesmo
onde cordeiros perfeitos, que nasciam sem manchas ou defeitos, eram separados e
cuidados para o sacrifício. Teólogos reformados como João Calvino observam que
essa circunstância evidencia a humilhação com que Deus escolheu introduzir seu
Filho ao mundo, sendo um testemunho tanto do desprezo humano quanto da
soberania divina. Calvino afirma: “Cristo foi colocado em uma manjedoura,
não apenas como sinal de sua humilhação, mas também como um símbolo da sua
oferta futura em nosso favor” (CALVINO, 2006, p. 42).
Outro aspecto relevante é o
anúncio do nascimento aos pastores nos campos próximos, conforme registrado em Lucas
2.8-12: “Havia naquela mesma região pastores
que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. E
um anjo do Senhor desceu onde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao
redor deles, e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, lhes disse: Não
temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o
povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o
Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas
e deitada em manjedoura”. Edersheim observa que o anúncio feito aos
pastores, que provavelmente cuidavam dos cordeiros sacrificiais, foi uma
escolha divina para destacar a identidade de Jesus como o Salvador, ligando-o
diretamente ao propósito sacrificial (EDERSHEIM, 1993, p. 187).
Além disso, a referência ao Midgal
Eder também aponta para o cumprimento das profecias messiânicas. Miqueias
5.2 declara: “E tu, Belém-Efrata, pequena
demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de
reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da
eternidade”. Esse versículo conecta diretamente o nascimento de
Cristo à soberania divina em orquestrar todos os detalhes do plano redentor.
Martinho Lutero destaca a inversão divina dos valores humanos nesse evento: “O
nascimento de Cristo em condições humildes nos ensina que Deus não se revela
naquilo que o mundo considera grandioso, mas no que é pequeno e desprezível”
(LUTERO, 2017, p. 88).
A localização do nascimento de
Jesus não é, portanto, meramente um detalhe histórico, mas uma mensagem
teológica e profética. O simbolismo da manjedoura reflete o propósito redentor
de Cristo desde o início, apontando para sua obra sacrificial e para a
acessibilidade do evangelho a todos os homens. A escolha dos pastores como
primeiros receptores do anúncio reforça o papel inclusivo do Messias, cuja
missão transcende hierarquias e preconceitos sociais.
Desde o seu primeiro momento na
terra, o Salvador manifesta seu papel como o Cordeiro de Deus, apontando para
sua futura obra de redenção na cruz. Esse evento, cercado de humildade e
simbolismo, reafirma a soberania e a graça de Deus, revelando que o plano de
salvação foi desenhado com precisão divina para glorificar o Seu nome.
Referências Bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Tradução Almeida
Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
CALVINO, João. Comentário de
Lucas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
EDERSHEIM, Alfred. The Life
and Times of Jesus the Messiah. Peabody: Hendrickson Publishers, 1993.
LUTERO, Martinho. O Nascimento
do Salvador. São Leopoldo: Sinodal, 2017.

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