#3. Segurança e Direção
"Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam"._(Salmo 23.4).
Queremos dar continuidade à nossa série de exposições iniciadas em Janeiro acerca do belíssimo salmo 23 e suas implicações para os eleitos do Senhor. No primeiro texto, abordamos o conceito de pastor à luz da tradição de povos do antigo oriente, que viam seus monarcas como pastores, a quem era encarregada a proteção e a provisão de seus súditos. Assim, o salmista confessa sua devoção, confiança e cuidado em seu rei, o Senhor. No segundo texto, o salmista enxerga em Deus a sua fonte de descanso e refrigério.
Diante do vislumbre de um pastor amoroso e cuidadoso, o provedor que supre as necessidades, que oferece descanso e nutre seu rebanho com água fresca; Davi observa uma grande realidade que cerca toda a espécie humana: o vale, problemas e perigos. Bom seria, querido leitor, que eu pudesse dizê-los, como muitos se atrevem, que a caminhada cristã é uma jornada isenta de perigo. Eu bem gostaria de afirmar que sua trajetória será calcada de vitórias, conquistas, milagres e superações. Seria uma leviandade de minha parte. Nem as Sagradas Letras oferecem tais promessas.
Paulo recorda em Romanos 8.36-37 um escrito de Salmo 44.22: "Por amor de ti, somos entregues à morte todos os dias". Observe como a jornada humana em peregrinação aos céus é cheia de perigos que podem comprometer até mesmo a manutenção de nossa vida aqui na Terra. Esta foi a afirmação de Davi: É possível SIM, passarmos pelo vale da sobra da morte.
Esta expressão não é a melhor tradução para palavra hebraica tsalmaveth, presente no texto original. Um conceito único e complexo no Antigo Testamento. Apesar deste conceito ser traduzido literalmente como sombra mortal, dependendo do contexto, ele pode ser compreendido como trevas densas e profundas. Perceba como o segundo significado é muito mais intimidador e apavorante do que o primeiro.
Este mesmo conceito também aparece em outras passagens bíblica. Em Jó 10.20-22, no auge de seu sofrimento angustiante, o autor roga: "Porventura não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento. Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e da sombra da morte; terra escuríssima, como a própria escuridão, terra da sombra da morte e sem ordem alguma, e onde a luz é como a escuridão".
Em Jeremias 2.6, o profeta escreve acerca de Israel: "E não disseram: Onde está o Senhor, que nos fez subir da terra do Egito, que nos guiou através do deserto, por uma terra árida, e de covas, por uma terra de sequidão e sombra de morte, por uma terra pela qual ninguém transitava, e na qual não morava homem algum?".
O termo é aplicado, no caso do Salmo 23, em um contexto onde o pastor conduz o seu rebanho. Por esta razão, a metáfora "Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte..." aponta para a proteção oferecida pelo pastor frente aos mais terríveis perigos que seu rebanho enfrentará ao longo do percurso. Ao afirmar "...não temeria mal algum, porque tu estás comigo...", fica evidente a confiança do salmista na segurança oferecida pelo seu Bom Pastor frente às mais angustiantes e perigosas situações desta vida. Esta confiança perpassa pela mesma certeza afirmada e declarada pelo apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos 8.38-39: "Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem os poderes, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor".
Pense
comigo, querido leitor, o escuro da noite gera medo. Seria apavorante
sombras inconstantes, dificuldade em distinguir os perigos e o silêncio da
noite por vezes irrompido por barulhos indecifráveis. Se o rebanho é conduzido após
o pôr do sol, quando a visibilidade se torna incerta, é normal que as ovelhas
estejam inquietas. Há o risco do rebanho se assustar, se distanciar, se perder
ou ser atacado abruptamente. Contudo, aqueles que são conduzidos
pelo Senhor, pelo Bom Pastor, até mesmo nas mais densas trevas do sofrimento,
da incerteza e de todos os problemas humanos, se sente seguro. Tu estás comigo!
Esta é a certeza que nos sustenta. Esta declaração de Davi nada mais é do
que a proclamação de uma confiança inabalável e sintetiza a experiência de uma fé mais radical.
Com
a proximidade de Deus a realidade se transforma, as densas e profundas trevas
perdem todo o perigo e se esvazia de toda ameaça. O rebanho agora pode caminhar
tranquilo, seguro, acompanhado pelo som familiar da vara que bate sobre o
terreno e sinaliza a presença reconfortante do pastor.
Neste
sentido, a vara é o instrumento utilizado pelo pastor para espantar o perigo e a
ameaça de ataque. O cajado, por sua vez, é um instrumento utilizado para condução
do rebanho. Em um certo sentido, o cajado também era utilizado para impedir que
as ovelhas se distanciem de suas irmãs. O pastor, assim, as puxava novamente ao
aprisco com a ponta curvada do cajado.
Esta imagem divina e celestial encerra
a primeira parte do Salmo 23, dando lugar a um novo cenário. Estamos no
deserto, onde o pastor apascenta o seu rebanho, mas agora seremos transportados
para a sua tenda, onde poderemos desfrutar de sua hospitalidade e generosidade.
Não perca nosso próximo texto.
Que Deus abençoe a todos!
Saudações cristãs.
Fábio Luiz de Souza

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