Um chamado ao resgate do Dia do Senhor

Antes de iniciar a leitura do texto é necessário você saber que este breve artigo é um resumo e uma adaptação do livro “O Dia do Senhor”, de autoria de Joseph A. Pipa, publicado pela Editora Clire. Recomendo fortemente a leitura desse livro! Deus o abençoe!

O Dia do Senhor é um dos dez princípios imutáveis que o homem corrompeu com a queda. Nesta breve publicação, desejo fazer uma abordagem panorâmica a respeito do tema para percebermos a importância desse princípio, e então, resgatarmos nosso amor e zelo pelo Dia do Senhor, o shabbat cristão.

Para início de conversa, é surpreendente observar que o início da regulamentação do Dia do Senhor não é nos dez mandamentos, mas na criação. Em Gênesis 2.1-3, Deus fornece duas características desse dia: dia de descanso e dia santo. Êxodo 23.12 mostra que esse é um dia de descanso. Descanso não apenas como cessação do trabalho, mas descanso santo; isto é, com um significado espiritual. Os puritanos chamavam-no de o Dia da Feira da Alma. O dia em que realmente descansamos nossos corpos do trabalho semana, e nos preocupamos em alimentar nossa alma abundantemente (com o fim de promover descanso espiritual). Essa é a metáfora: assim como há um dia em que vamos à feira comprar mantimentos para nosso corpo, o Dia do Senhor é o dia das transações espirituais! Isso ilustra a santidade desse dia, pois ele foi constituído para abençoar o homem (Marcos 2.27). Portanto, o propósito essencial do dia do Senhor é de adoração e serviço espiritual e isso resulta em frutos espirituais que santificam o homem.

Em Êxodo 20.8-11, temos esse preceito eterno escrito pelo próprio dedo de Deus na TORAH. É o único mandamento que é introduzido pela palavra “lembra-te”. Isso mostra que um dos propósitos do Dia do Senhor é lembrar que Deus é criador e redentor soberano (Êxodo 31.17 e Deuteronômio 5.15). Na criação três mandatos foram dados ao homem: (1) O social (pelo qual o homem deveria se relacionar com seus semelhantes); (2) O cultural (onde o homem deveria se relacionar com a criação de um modo geral); e (3) O espiritual (por meio do qual o homem deveria se relacionar com Deus). Gênesis 2.16-17 registra esse último mandato. O Dia do Senhor deveria servir como um meio para que o relacionamento com Deus fosse cultivado e fortalecido. Números 28.9-10 mostra o shabbat como o vigoroso dia de adoração. O Salmo 92 é intitulado “Cântico para o Dia de Sábado”. Esses textos mostram que propósito principal do Dia do Senhor é alimentar nosso relacionamento com Deus por meio da nossa adoração (por essa razão o dia do Senhor gira em torno do culto).

Êxodo 31.16-17 mostra outra realidade muito importante do Dia do Senhor: ele serve de sinal do pacto entre Deus e seu povo. Ezequiel 20.12-20 deixa claro que o shabbat era uma lembrança aos povos vizinhos que Israel era o povo escolhido por Deus para um relacionamento exclusivo. Sendo assim, para Israel, o shabbat apontava para duas direções: (1) Para trás, lembrando-os de Deus como Criador que após a queda prometeu-lhes salvação por meio de um Redentor; (2) Para frente, lembrando-os que pela fé deveriam esperar o salvador prometido. O Dia do Senhor sempre foi um sinal perpétuo daquilo que Deus fizera e que ainda iria fazer em favor de seu povo. Fazendo uma ponte para nós, crente da Nova Aliança, o Dia do Senhor também aponta para duas direções: (1) Para trás, à ressurreição de Cristo; e nos lembra que quando descansamos nele, nossos pecados são perdoados; (2) Para frente, que Cristo voltará e nós viveremos com ele em perfeita felicidade e descanso para todo sempre em um eterno dia do Senhor (é por isso que cada domingo é uma antecipação do dia eterno)!

Hebreus 4.9-10 aponta para essa mudança supracitada. O autor aos hebreus deseja mostrar que Cristo inaugura uma nova era escatológica. Nesse texto, um descanso é prometido para o povo de Deus. Essa palavra descanso sugere uma observância religiosa. A forma verbal dessa mesma palavra aparece em Êxodo 16.30, Levítico 23.32, 34-35. Nesses textos a ideia é a de guardar o shabbat  ou observar o Dia do Senhor. O que o autor aos hebreus está dizendo é que seus leitores devem deixar de olhar para trás (judaísmo, Antiga Aliança) e passem a olhar para frente (cristianismo, Nova Aliança). Eles devem ter esperança em um descanso futuro, mas enquanto esse bendito dia eterno não chega, eles devem antecipá-lo guardando o Dia do Senhor continuamente. Mas, que dia da semana seria esse?

O texto também aponta para a mudança do dia semanal de descanso. Na Antiga Aliança, como bem sabemos, era o sábado. Mas, e agora, na Nova Aliança? A resposta se encontra no verso 10, onde o escritor compara o repouso de Cristo de sua obra de redenção com o descanso de Deus da obra da criação. Deus descansou de sua obra no sábado, e por isso os judeus guardavam-no. Cristo descansou no domingo (a ressurreição marca a conclusão da sua obra de redenção, seu descanso), e por isso devemos guardá-lo. Haveria apoio na Bíblia para isso? Claramente! Veja João 20.26, Atos 20.7, I Coríntios 16.1-2 e Apocalipse 1.10, pois cada um desses textos mostram que essa mudança havia ocorrido na igreja primitiva.

Em resumo, o resgate do Dia do Senhor perpassa por três pontos essenciais: (1º) Compreendê-lo como ainda válido por ser tratar de um princípio moral normativo para o crente (o que foi mostrado nesse breve artigo); (2º) Entender a sua transição do sábado, na Antiga Aliança, para o domingo, na Nova Aliança (o que também foi muito resumidamente apontado); (3º) Compreender como esse dia deve ser guardado; esse pode ser tema de um futuro texto, mas, em linhas gerais, devemos entender o seguinte: como foi dito acima, esse é o dia da Feira da Alma, o dia das santas transações espirituais. Portanto, três tipo de obras devem ser cultivadas nesse dia - obras de necessidade, obras de misericórdia e, sobretudo, obras de adoração realizadas em público e em privado (individualmente e em família).

Enfim, esse dia só será resgatado na medida em que for entendido como a Bíblia o revela, bem como na medida em que a Bíblia ensina como dele devemos fazer uso. Por essa razão, encerro com palavras do puritano Thomas Hooker: “A santificação do domingo não é melhor que a sua profanação?”

Que Deus abençoe o seu resgate do dia do Senhor! Esforce-se por isso!

Rev. Alcir Moreno

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